quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Consciência

Um olhar longe e vazio, lá estava ela, marcando o tempo e a distancia da sua juventude. Bem que  os seus lindos olhos azuis poderiam  ter lhe  rendido um reflexo de uma vida soberana!...Talvez, Alicia estivesse lembrando a juventude dos seus sonhos ou do que poderia ter sido...E quem sabe, apenas  descobrindo que a vida que sonhou foi apenas uma tentativa de ser melhor...Naquele momento, ninguém a interrompia...Era como  retornar ao passado e assim, viver dele. Afinal, nada havia mudado, ou quase nada, já que nas mãos carrega  os traços de um  tempo que não passou sem cobranças... No seu olhar, apenas o azul  do céu refletindo o mar bem distante. Alicia em alguns momentos, passa a limpo a sua história, no qual protagonizou  e assistiu passar em um simples olhar...Não consigo imaginar aquela linda senhora, querendo tão pouco, buscando  no meio do nada e como às cegas, vivendo...Não  tinha sabor, gestos ou opiniões, e viveria apenas aquele momento, mesmo que nada representasse. Era para Alicia, como se tudo fosse nada, um nada além dela, fundamental para sua existência. A vida não reservou muitas surpresas, não lhe deu nada além do que ela mesmo tinha plantado, inclusive os filhos que foram nascendo e fazendo parte de toda aquela encenação. Ah! Mas Alicia, queria viver mesmo que sem objetivos e rumos, a felicidade era apenas um caminho que ela gostaria de ter  encontrado...E ali, permanecia estática, com aquele olhar perdido e vazio, parecia indagar à Deus onde estaria o que buscou ao longo dos seus 70 anos...?
 E o que teria acontecido com tantas e outras pessoas que em sua vida haviam passado, marcado e até mesmo roubado? Em um dialogo quase que incompreensível,  o seu testemunho de que Deus não existe,  e que se algum dia existiu, dela esquecera ,  foi fixado por uma vida única,  solitária e fracassada.
Onde estaria  os planos dele para com ela? O porquê de tantos desencontros, já que para ela só restou a beleza de um lindo olhar...Os minutos de sabedoria para Alicia, era lembrar da existência do criador, mesmo que em suas lembranças a única coisa que lhe restara, era as suas indagações, que por muitos momentos, eram fardos inaceitáveis e  intrânsferiveis. Era quase que um castigo, aceitar as suas duvidas, era como se Deus a punisse por buscar  algo que nem mesmo ela sabia  o que era... De algumas lembranças, ela conseguiu se livrar, de outras, não tivera a mesma chance... Por isso, ficou muito brava, e por algum tempo, sentiu-se presa, sem motivo para a sua incessante busca. Por algum tempo sentiu-se sem o fardo, sem as cobranças, mas este, passou tão rápido, que lá estava  Alicia, aventurando-se no meio do nada.. .O tempo não lhe dera  ao menos a chance de saber o que realmente queria...E por isso, ela como desabafo, descarregava as suas dúvidas, desamores e frustrações, em suas loucas "aventuras" onde, sentia-se livre e capaz... Eu deveria acreditar que Alicia hoje, era sombra do seu passado, mas jamais imaginaria que aquele passado, pra ela, nunca existiu...Era apenas o reflexo do que poderia ter sido....Pensando assim, também percebia que Deus não teria nenhuma outra resposta  para as suas conclusões, e prefiro entender que: A vida que escolheu Alicia.. .
Em seu silencio, seria eu, capaz de imaginar os questionamentos dessa mulher, aos ouvidos de Deus:
-" Olha, não posso dizer-te que espero algo mais de ti, afinal, o que escreveste para mim? Nem sei se sou real ou se no que acreditei pode ser creditado no que fui. Porém, nunca soube lidar com as minhas crenças, medos e emoções. Assim, vivi um dia como se fosse único, sem prazo de validade me deixei levar.
-Vou te confessar que a beleza que tu me deste, foi o ápice dos meus desatinos, porém, não sei se viveria tanto se não fosse por isso...Em alguns momentos, e muitos deles, me sentia abandonada, carregando sozinha  a cruz que eu mesma moldei.- Claro que por minha vaidade e descontrole, pude até não ter te percebido, mas também não tive em mim, o conceito de ser amada.. Me sentia tão pouco, que sobrevivi com  migalhas....Não fui capaz de saber o que eu era, o que sentia, e porque estava aqui. .Muito pouco, o que pretendia ser...Só sei que levei  a vida buscando sentir.. E agora? Já não posso mais me condenar se algum dia deixei para trás pecados que não só eram meus. Não aceito mais  justificar os erros que hoje marcam à minha solidão.
Então, o que queres que eu faça? Sei que por algum motivo vivo, e que em algum lugar alguém me procura, me acolhe e me ama ...Então, relembrar o passado, não me traz grandes  histórias, mas, me ajuda a continuar vivendo, embora ainda, não sei o que é a vida...Eu até que tentei, tive momentos de lucidez, momentos que achei que o fardo não era tão ruim assim,.. Mas, eu queria  muito buscar o que ainda desconhecia... .Posso até concordar que em algumas noites de natal, quando você vinha e enchia o meu coração de amor, fazendo sentir-me terna, amada,  forte e feliz... Mas  nas escolas de minha vida, eu   insistia em retornar...Na guerra para sobreviver, sim, eu ganhei muitas   batalhas.. Outras tantas, perdi... Você esteve por perto, mas nem sempre eu te ouvia...,Não consegui dar-lhe o que nunca tive, nem  acertar, o que não aprendi....
Não! Eu não culpo a vida, apenas reflito sobre o que poderia ter sido...E ainda assim, não me sinto culpada. Tá tudo bem, eu sobrevivi!
Na verdade, não me sinto castigada, sou a metade do que senti, a outra, estou aqui...Eu não sabia o que queria, apenas, deixei as emoções falar por mim...É...eu deixei ...E por quantos me deixei   enganar em busca de um amor? Tudo poderia ter sido tão fácil, tão diferente e real...!!! Da realidade, sobrou-me as lembranças.. . Das  informações contrárias, dos caminhos, dos espinhos , das sensações, aventuras e insensatez, dos amores e horrores enfim...E hoje, aqui estou ...Relembro com saudades da juventude que vi, dos amores que sonhei, das historias que ouvi e da vida que senti...Ainda me lembro dos caminhos que trilhei, e carrego comigo,  as marcas, dos espinhos  em que pisei."...E foi assim...No silencio, com os   pensamentos distantes,  alguns suspiros pairavam no ar que cobria Alicia.. .Por  instantes, se recompunha da fase pálida que acompanhara toda a sua indagação...,O pensamento longe, como  sua companhia...    A contradição do seu olhar, poderia ser  vista,  quando por alguns momentos, em  sua face entoavam gestos de  alivio . Alicia não se mostrava arrependida, porém, confusa em sua própria condição...
Por hora, os seus pensamentos  eram quase que reais: Parecia sentir cada detalhe de suas memórias...Ora com lagrimas nos olhos, outras,  um sorriso tímido e perdido.  Mas como não relembrar os momentos que a puseram no apogeu de sua trajetória? O que buscava Alicia em seu silencio? Talvez, a certeza de que vivera as sensações que hoje, traduz  a sua história, ou a  saudade de um passado jamais esquecido,.. Quem sabe ainda , a magia de descobrir que em si, houveram fracassos,  vencidos simplesmente  pela maestria de Ser...Com erros, , acertos, choros e risos, amores e desamores e... Muita vida para se VIVER...
Veremos nos próximos capítulos ,Alicia em "Segredos dos sonhos à caminho das borboletas".

 
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